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COLUNISTAS / Mundurukando

Escola de vida

13/01/2016

Fui desde pequeno aluno de escola salesiana. Os salesianos são missionários. Eles vieram da Itália para o Brasil e muitos outros lugares do mundo. Foram fundados por um sacerdote de nome João Bosco. Virou Dom Bosco. Foi inspirado pelo universo a cuidar das crianças. Para isso, criou um modelo de educação baseado no afeto. “Educação é coisa do coração”, ele dizia.

Seu pensamento rompeu com o modelo que existia até então e que pregava o distanciamento entre os que sabem – professores, mestres – e os que não sabem – os alunos, estudantes. Na cabeça dele, os educadores salesianos deviam estar o tempo todo grudados nos alunos, marcar presença.

Isso funcionou. Logo suas obras se encheram de crianças e jovens, apesar dele não ter recursos financeiros para isso. Tudo o que era ausência ele creditava à ação das divindades católicas. Nunca nada faltou a ele e seus seguidores.

Depois que tudo se concretizou na Europa, Dom Bosco intuiu que deveria espalhar seu método pedagógico em outros lugares do mundo. Ele chegou a sonhar com o Brasil. Ou melhor, com Brasília (que hoje tem um templo dedicado a ele). Por conta disso, seus missionários desembarcaram em nosso país trazendo os sonhos desse que tornou-se, depois, um santo católico. Eles abriram casas salesianas de norte a sul do Brasil. No norte, estão entre os primeiros missionários que chegavam. Alguns grupos indígenas foram contatados por eles (e isso nem sempre é algo completamente positivo ou negativo).

Suas obras seguiam o mesmo modelo da Europa: grandes prédios, locais para jogos e brincadeiras, uma rígida presença dos padres e irmãos, que se revezavam no cuidado com as crianças. Para elas, criaram os famosos oratórios, que consistiam em abrir as obras aos finais de semanas, para que pudessem frequentá-las. Num determinado momento do período, o padre, seminarista ou irmão que comandava a obra parava tudo, convocava as pessoas e fazia uma pregação, salientando a importância de se viver bem, respeitar os pais, adorar a Deus e ir à escola. No final, uma oração para concluir tudo.

Foi num lugar assim que eu estudei. Gostava de ir para lá justamente por causa do espaço e da possibilidade de brincar, reproduzindo a aldeia e nossos jogos. Eu me divertia à vontade ali e frequentava o catecismo, já que era condição para poder participar do oratório. Não posso me queixar daquilo, pois ali eu aprendia uma porção de coisas que serviam para minha vida e ainda podia ganhar alguns brinquedos no final do ano, caso não faltasse nenhum domingo. É que os padres tinham uma estratégia para nos manter fiéis: uma carteirinha de presença. Com ela, a gente ia somando pontos para trocar, no final do ano, com o que a gente quisesse. Quanto maior a presença, maior a pontuação; e quanto maior a pontuação, melhores os produtos que a gente poderia trocar. Funcionava como um supermercado. Só que a gente não comprava os produtos, mas trocava a partir dos pontos que tinha.

Como a gente era pobre de marré, marré, marré, minha mãe fazia questão que a gente não faltasse nenhum domingo sequer. No final do ano, se tudo corresse bem, poderíamos trocar nossa pontuação por uma… rede de dormir, que era o produto “mais caro”. Eu queria, na verdade, trocar por uma bola de futebol ou por um carrinho. Quase nunca conseguia, porque meus pontos não permitiam acumular. A rede era mais cara e havia uma necessidade maior em casa. Então, tinha que abrir mão de minha vontade para poder satisfazer nosso coletivo familiar. Claro que à época eu tinha minhas frustrações por causa disso, mas compreendia o que se passava.

Conto essas coisas para não esquecê-las. Elas revelam minha origem difícil e com bastante dificuldades. Lembro de meu avô dizendo que é preciso valorizar nossa história para não nos deixar vencer por esta sociedade de consumo que quer a gente escrava do ter. Ele afirmava que a gente corria o risco do esquecimento quando se deixava levar pela ingratidão. Nós não podemos nunca esquecer de onde viemos para não desejar humilhar, escravizar, diminuir ou desmerecer as pessoas com as quais a gente convive em nosso cotidiano.

Embora nem sempre concorde com as práticas dos religiosos que estão presentes nas áreas indígenas, não posso ser ingrato ou desconsiderar o importante trabalho que fizeram em prol de nossos povos indígenas. Houve erros, claro. Houve acertos, é certo. Faz parte de nossa humanidade. Faz parte da história que vivemos. O que sei é que isso marcou meu corpo e minha história pessoal. Para ser fiel ao meu avô, não posso negar os benefícios que recebi e os quais fazem parte daquilo que sou.

COLUNISTAS / Daniel Munduruku

Daniel Munduruku é graduado em filosofia e doutor em Educação pela USP(Universidade de São Paulo).

Autor de premiados livros para crianças e jovens, reconhecido nacional e internacionalmente, comendador da Ordem do Mérito Cultural da Presidência da República.  Reside em Lorena desde 1987; é casado com a professora Tania Mara, com quem tem três filhos.


dmunduruku@uol.com.br

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