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COLUNISTAS / Mundurukando

No quintal de casa, o primeiro beijo

29/01/2016

Vivendo na cidade, morei em várias casas. Éramos pobres. Ou ao menos era assim que a gente era visto. Não tínhamos casa própria e, por isso, andamos por muitos lugares. Meu pai dizia que a gente não era pobre, apenas não precisávamos ficar presos às coisas. Ele dizia que nossa gente era nômade. Quis saber o que significava essa palavra. Ele disse que não devíamos parar num mesmo lugar para não ter que juntar muitas tralhas. Não entendi nada, mas fiz que sim. O fato é que a gente era pobre mesmo. Na mata, a gente consegue tudo o que a gente precisa, mas na cidade as coisas são diferentes. Por lá, as pessoas não são parentes, são inimigas. Todos acabam brigando uns com os outros. A isso chamam de civilização.

Numa das casas onde moramos tinha um grande quintal. O lugar todo era chamado de curral. Não sei bem o porquê. A rua toda era constituída por casinhas bem simples, mas com um quintal imenso, quase uma floresta. Bem, para mim era uma floresta. Nessa época eu tinha uns sete ou oito anos, se bem me lembro. E foi no quintal dessa casa que eu dei o primeiro beijo. Quer dizer, ganhei o primeiro beijo, coisa de menino.

Nosso quintal era uma floresta, como já falei. Lá eu reunia meus colegas e vizinhos. Gostávamos de fazer caminhos para construir um lugar secreto aonde a gente poderia brincar sem ser incomodados. Era exclusivo de meninos e as meninas eram proibidas de entrar. Durante um ano inteiro construímos esse lugar: abrimos uma pequena clareira, buscamos madeira para fazer um abrigo, cobrimos com palha de açaizeiro, fizemos banquinhos para sentarmos, cobrimos o chão com barro batido. Após meses de trabalho, a gente pode inaugurar nosso esconderijo. Ali a gente poderia contar nossos segredos, falar bobagens e até dormir, se quiséssemos. E assim foi por algum tempo.

Um dia, Jairo Adonai, um dos colegas mais próximos, veio com uma ideia que nos pareceu ridícula no início: convidar algumas meninas para uma festinha. Ele argumentou que do jeito que estava, não ia dar para continuar, porque a gente já era crescido e precisava variar um pouco naquela nossas reuniões. Depois de confabularmos muito, acatamos a ideia de Jairo e marcamos para dali a uma semana fazermos a tal festinha em nosso lugar.

Fizemos os preparativos, arrumamos o local, enfeitamos e até colocamos roupa limpa para recebermos as meninas. Jairo ficou encarregado de convidá-las e trazê-las na hora combinada. Tudo saiu em conformidade. Por volta das 17 horas, as meninas chegaram. Foram trazidas pelas mãos de Jairo, que também era o mais velho da turma. Eram apenas três meninas. Nós éramos em seis. Alguma coisa estava errada na conta de Jairo e isso nos deixou furiosos. Ele apenas levantou os ombros alegando que as outras ficaram com receio de vir. E agora? O que fazer?

Jairo novamente tomou a iniciativa e mandou as meninas sentarem. Elas estavam intimidadas com o local e pelo menor número presente. Fizeram pose para ir embora, mas Jairo logo se adiantou e as convenceu a ficar, dizendo que elas teriam muito para contar depois. Elas resolveram entrar no jogo. Servimos um suco aguado que tínhamos preparado e umas bolachas que roubamos de nossas casas. Elas se serviram e foram aos poucos se desinibindo.

Passaram a perguntar coisas sobre nosso “covil”. Eu fiquei desconfiado dessas perguntas e me recusei a responder. Até cutuquei meu amigo do lado para aquilo que parecia espionagem.

A conversa foi ficando tensa. Jairo interviu mais uma vez, mudando de assunto. Ele é que começou a perguntar a elas coisas mais pessoais e até íntimas. Elas retrocederam um pouco, se sentindo acuadas. Mas isso foi apenas por uns segundos, porque elas tomaram a iniciativa e nos desafiaram a contar se já tínhamos beijado alguma menina.

Gelamos. Tomei um golão do suco aguado para molhar a garganta. Outros colegas fizeram o mesmo. Elas riam de nossa fragilidade. Jairo, que era famoso por suas mentiras, se apressou e foi logo dizendo que já havia beijado várias meninas. Nós mesmos demos uma vaia nele porque sabíamos que não era verdade.

O silêncio imperou por dez segundos. Uma delas levantou-se e, de surpresa, agarrou o Jairo e o beijou na boca, para o espanto de todos nós. Outra fez o mesmo com um dos meninos e a terceira veio para cima de mim que, apavorado, não consegui sair do lugar. Quando dei por mim, ela já estava encostando sua boca na minha, sob o protesto dos outros colegas que esperavam sua vez. Eu estava sem reação, mas quando seus lábios tocaram os meus, uma chama interna se acendeu e passei a corresponder àquele delírio todo.

Tudo foi tão rápido que, quando eu ameacei jogar meus braços em torno de seu corpo, ela me deu um safanão no peito que me lançou ao chão. Em seguida, saíram as três correndo e rindo. Nem olharam para trás.

COLUNISTAS / Daniel Munduruku

Daniel Munduruku é graduado em filosofia e doutor em Educação pela USP(Universidade de São Paulo).

Autor de premiados livros para crianças e jovens, reconhecido nacional e internacionalmente, comendador da Ordem do Mérito Cultural da Presidência da República.  Reside em Lorena desde 1987; é casado com a professora Tania Mara, com quem tem três filhos.


dmunduruku@uol.com.br

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